Tenho uma amiga apaixonada por comida e viagens, ela é autora de um divertidíssimo livro intitulado “Crônicas do Perrengue: histórias de uma brasileira pelo mundo” . Disponível no Brasil pela PoloBooks. e no resto do mundo pela Amazon.

Apesar de ter viajado por muitas regiões e países diferentes nada a preparou para o choque alimentar que seria morar na Republica Checa. Aqui neste artigo ela conta um pouco desta experiência, e conta muitas outras histórias nas Crônicas do Perrengue.

Para além do arroz e feijão

Por: Marina de Mello, autora do livro “Crônicas do Perrengue: histórias de uma brasileira pelo mundo”

 

Eu costumava dizer que me mudei para República Tcheca carregando “apenas” duas malas de viagem. A verdade é que, observando hoje, eu vejo que aquelas eram apenas as bagagens “visíveis”. Junto com elas vieram mais umas três pesadas maletas invisíveis, preenchidas com todos os meus velhos hábitos e crenças. Sem dúvidas, a mala mais pesada foi aquela dos hábitos alimentares. Como uma boa amante de comida, eu grudei nessa mala e não queria mais largar!

“Um mundo sem arroz e feijão? Imagina! Impossível de se adaptar”, eu pensava.


Foi com essa mentalidade que tive de encarar os primeiros dias na cantina do trabalho. Eu passava trinta minutos andando de um lado para o outro, tentando entender o conceito. Primeiro, era preciso passar pela área das saladas, que eram servidas em um prato separado. A minha impressão é que sempre disponibilizavam dez tipos diferentes de repolho, três cortes únicos de pepino e alguns vegetais surpresas. Quem nunca cuspiu fogo comendo raíz-forte achando que era repolho ralado que dê a primeira risada!  Foi assim, na surpresa, que eu conheci a salsinha crespa, o aipo-rábano, a couve-rábano e a cheróvia, legumes dos quais eu nunca havia ouvido falar.

 

 Salsinha Crespa Couve-Rábano Aipo-Rábano Cheróvia
Salsinha Crespa Couve-Rábano Aipo-Rábano Cheróvia

 

Concluída a saga das saladas, era hora de escolher o prato do dia, o famoso prato feito. Lá, eu passava mais quinze minutos só tentando entender o que eram, pois os nomes estavam todos em tcheco. As opções de menu da cantina não eram nada diferentes daquelas dos restaurantes tchecos espalhados pela cidade. O astro principal é a carne de porco, que é preparada de diversas formas: cozida, assada, frita ou grelhada. O frango também é bastante comum. As carnes são normalmente servidas com batatas (aliás, se tem uma coisa que essa parte do mundo ama, é batata), sendo outros acompanhamentos comuns o arroz, a lentilha e os dumplings.  Este último é bem famoso e servido com pratos que contém molho. Ele tem a textura de uma massa bastante mole e o gosto é neutro. É um elemento pouco compreendido entre  os estrangeiros (inclusive eu!), apesar dos tchecos amarem!

Svíčková – Carne assada servida com molho levemente adocicado, chantilly, molho de cramberries, limão e dumplings.

Svíčková – Carne assada servida com molho levemente adocicado, chantilly, molho de cramberries, limão e dumplings.

 


Embora os pratos sejam em sua maioria servidos com carne, há algumas opções típicas vegetarianas. Já ouviu falar de couve-flor empanada e frita? Pois sim, ela existe! E fica ótima! Uma outra maravilha é o queijo empanado e frito. Normalmente é feito com o holandês gouda ou o francês camembert. Os tchecos empanam e fritam até cogumelos! Só perdem para os chineses. Uma terceira opção se parece mais com uma sobremesa, mas é servida como prato principal. Uma panqueca doce coberta com molho de baunilha e geleia de mirtilos. É muito saborosa, mas confesso que quando bate aquela fome no almoço, um prato salgado é bem mais apetitoso!


No começo era muito difícil para o meu cérebro assimilar essa composição dos pratos. Carne com batata é “mistura com mistura”. Eles comem só mistura? Cadê o resto? Demorou para que eu começasse a entender que existe vida feliz para além do arroz e feijão.

Smažený řízek – Carne de vaca, porco ou frango empanada e frita, servida com salada de batata.

 

O mais interessante é que não foi somente à comida que eu precisei me adaptar, mas também ao “ritual” de como se alimentar dos tchecos. Uma das mais marcantes características é que eles não dividem os pratos entre si. Como era de se esperar, eu descobri isso da pior forma, quando participei de um churrasco. Eu levei só uns pedaços de carne, achando que dividiríamos os alimentos. Chegando lá, cada um abriu seu potinho de comida (contendo linguiças, cogumelos, alguns legumes e pão), colocou em um cantinho da grelha e cada um comeu o seu! Passei a tarde inteira com vontade de provar a comida do vizinho, mas não era nada apropriado! Lição aprendida!

Com o tempo, tudo foi se ajeitando! Nosso cérebro é extremamente adaptável, e com um pouco de repetição, ele vai se ajustando a novas realidades e aprendendo a gostar do novo.  E o arroz e feijão? Bom, de vez em quando eu ainda como, mas não é essencial! Apesar de não ser comum na República Tcheca, há outros países que são apaixonados por essa combinação. Na Costa Rica, por exemplo, eles comem arroz mexido com feijão e coentro no café da manhã! Já na Turquia, o feijão é preparado como salada! Adivinha como eu descobri? Sim, jogando a salada de feijão (que deveria ser comida como entrada) em cima do meu arroz (que era prato principal), durante um jantar super formal. Mas tudo bem, eu aprendi a fazer cara de plena mesmo quando eu cometo uma gafe, questão de sobrevivência.


Ao me desfazer da minha pesada mala de velhos hábitos, eu fui abrindo espaço para novos gostos, temperos e sabores, e isso é extremamente rico e gratificante. Eu achei que isso não aconteceria, mas hoje meu mundo é composto por salada no café da manhã, iogurte com sal como bebida no jantar e raíz-forte de acompanhamento! A vida tem muito a nos ensinar se nós simplesmente nos permitirmos reescrever aquilo que somos e gostamos a cada dia!

 Café da Manhã em Praga

 

 

Por: Marina de Mello, autora do livro “Crônicas do Perrengue: histórias de uma brasileira pelo mundo”

Site: www.marinademello.com

Ig: @tourdoperrengue